O Projeto Natureza da CMPC avançou mais uma etapa no Rio Grande do Sul. A multinacional chilena recebeu a Licença Prévia para construir uma nova fábrica de celulose em Barra do Ribeiro, em um empreendimento estimado em R$ 27 bilhões. O documento foi emitido pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) em 22 de outubro de 2026 e entregue oficialmente pelo governo gaúcho no dia seguinte, em Porto Alegre.
Considerado pelo governo estadual o maior investimento privado anunciado na história do Rio Grande do Sul, o Projeto Natureza prevê uma nova unidade industrial, estruturas de transporte e instalações destinadas à exportação de celulose. A iniciativa ampliará a presença da companhia no estado, onde já mantém uma fábrica em Guaíba.
A autorização representa um avanço importante no planejamento do empreendimento, mas ainda não permite iniciar a construção. Para mobilizar as obras, a empresa precisará obter a Licença de Instalação, também concedida pela Fepam após a análise dos projetos executivos e das medidas de controle ambiental.
Resumo da notícia: principais pontos de atenção
- Investimento estimado: R$ 27 bilhões no Projeto Natureza.
- Localização: Barra do Ribeiro, no Rio Grande do Sul.
- Capacidade projetada: até 3 milhões de toneladas anuais de celulose, conforme a informação oficial da Fepam.
- Infraestrutura: fábrica, terminal para movimentação de madeira e celulose e estrutura portuária no Porto do Rio Grande.
- Empregos previstos: até 12 mil trabalhadores no pico das obras, além de aproximadamente 800 empregos diretos e 1.500 postos permanentes de terceiros na operação.
- Próxima etapa: obtenção da Licença de Instalação para autorizar a construção.
Projeto Natureza amplia a presença industrial da CMPC no Brasil
A implantação da nova fábrica representa uma expansão significativa da estrutura industrial da CMPC no Rio Grande do Sul. A companhia chilena atua nos segmentos florestal, de celulose e de produtos derivados, com operações que integram o cultivo de madeira, o processamento industrial e a comercialização de produtos para diferentes mercados.
A escolha de Barra do Ribeiro amplia a presença da empresa na região metropolitana de Porto Alegre e mantém a fábrica de Guaíba como parte de sua estrutura produtiva no estado.
O investimento anunciado, de R$ 27 bilhões, contempla uma operação industrial de grande escala e estruturas logísticas associadas. O valor coloca o projeto entre os empreendimentos mais relevantes para a indústria brasileira de celulose, mas precisa ser interpretado como uma estimativa de investimento, e não como recursos já integralmente aplicados.
Para o Rio Grande do Sul, a implantação poderá movimentar diferentes segmentos econômicos, desde a construção industrial e o fornecimento de equipamentos até o transporte, a manutenção e os serviços especializados.
A dimensão desses efeitos, entretanto, dependerá da execução efetiva do empreendimento, da contratação de fornecedores e do cumprimento das etapas de implantação.
Capacidade da nova fábrica de celulose e escala de produção
Um dos aspectos que chama atenção no Projeto Natureza é a capacidade industrial prevista para a futura unidade.
A publicação oficial da Fepam informa que a fábrica foi projetada para produzir 3 milhões de toneladas anuais de celulose branqueada de eucalipto, utilizando o processo industrial Kraft.
Entretanto, a reportagem publicada pelo GZH em 23 de outubro apresentou uma estimativa diferente, de 2,5 milhões de toneladas por ano.
A divergência merece registro porque a capacidade projetada influencia o dimensionamento de toda a operação, incluindo abastecimento de madeira, consumo de insumos, transporte, armazenagem e escoamento da produção.
Para esta matéria, foi adotado o número de 3 milhões de toneladas anuais, por corresponder à descrição técnica publicada pela Fepam. A diferença em relação ao número divulgado pelo GZH deverá ser acompanhada até que exista esclarecimento definitivo da empresa ou documentação técnica consolidada.
É importante também distinguir capacidade projetada de produção efetiva. Mesmo após a conclusão das obras, a unidade precisará passar pelas etapas de autorização e preparação operacional antes de alcançar sua capacidade nominal.
Como funciona o processo de fabricação e geração de energia
A tecnologia prevista para a nova unidade é o processo Kraft, amplamente utilizado na indústria de celulose. Nesse método, a madeira é submetida a um tratamento químico que permite separar as fibras de celulose de outros componentes vegetais, principalmente a lignina.
Após essa separação, as fibras passam por etapas de lavagem, tratamento e branqueamento até atingir as características necessárias para a comercialização da celulose.
Um aspecto importante desse processo é o aproveitamento do chamado licor negro, subproduto que contém matéria orgânica dissolvida e produtos químicos utilizados na fabricação.
Nas fábricas que utilizam a tecnologia Kraft, esse material pode ser concentrado e encaminhado às caldeiras de recuperação. Sua queima permite gerar vapor e energia, além de recuperar parte dos produtos químicos empregados no processo industrial.
Segundo a descrição técnica divulgada pela Fepam, o Projeto Natureza prevê geração energética suficiente para atender às necessidades da fábrica, com possibilidade de comercializar o excedente na rede elétrica nacional. Essa geração, entretanto, ainda é uma previsão vinculada à futura operação.
O projeto também contempla o aproveitamento de lodos e outros subprodutos para a fabricação de fertilizantes comerciais, além da manutenção de um cinturão verde no entorno da unidade.
Essas soluções estão relacionadas ao aproveitamento de recursos e à gestão de resíduos industriais. Sua efetividade deverá ser avaliada durante a implantação e o funcionamento da fábrica, conforme as exigências ambientais aplicáveis. Fundação Estadual de Proteção Ambiental+1
Infraestrutura logística terá papel estratégico no empreendimento
Uma fábrica projetada para produzir milhões de toneladas de celulose por ano depende de uma estrutura logística capaz de acompanhar o ritmo da produção.
O abastecimento de madeira, o recebimento de insumos químicos, a movimentação interna e o transporte do produto acabado precisam funcionar de maneira integrada. Interrupções nessas atividades podem comprometer a continuidade operacional de uma unidade industrial dessa dimensão.
No Projeto Natureza, a logística foi incorporada ao planejamento do empreendimento, com previsão de transporte terrestre de madeira e insumos e utilização de estruturas hidroviárias para movimentação de cargas.
Terminal portuário no Porto do Rio Grande
Entre os componentes anunciados está a construção de um terminal próprio para exportação de celulose no Porto do Rio Grande, com investimento estimado em R$ 1,5 bilhão, segundo o governo estadual.
A estrutura deverá ampliar a capacidade de movimentação da produção e facilitar a conexão da indústria com os mercados internacionais.
O planejamento também contempla um terminal do tipo AWT, destinado ao recebimento de madeira e à movimentação de celulose por barcaças. A integração dessas instalações poderá reduzir a dependência de determinados trajetos rodoviários e ampliar as alternativas de transporte.
Existe, entretanto, uma questão financeira que merece atenção: as informações oficiais apresentam o investimento global de R$ 27 bilhões e mencionam separadamente os R$ 1,5 bilhão destinados ao terminal portuário. Não há esclarecimento suficiente para afirmar que esse último valor esteja fora do montante principal.
Portanto, não é adequado somar automaticamente os dois números para anunciar um investimento total de R$ 28,5 bilhões. Fundação Estadual de Proteção Ambiental+1
Empregos e oportunidades para a economia gaúcha
A implantação de um empreendimento industrial dessa escala poderá movimentar o mercado de trabalho regional, especialmente durante a construção civil e a montagem dos equipamentos.
As projeções divulgadas pelo governo do Rio Grande do Sul indicam a possibilidade de mobilização de até 12 mil trabalhadores no pico das obras.
Para a operação futura, estão previstos aproximadamente 800 empregos diretos e 1.500 postos permanentes de terceiros.
É importante distinguir essas duas etapas. Durante a construção, a demanda por profissionais tende a envolver atividades como engenharia, montagem eletromecânica, construção civil, instalações industriais, transporte e serviços especializados.
Na fase operacional, as necessidades profissionais estarão relacionadas ao funcionamento contínuo da fábrica, incluindo produção, manutenção, automação, controle de qualidade, segurança, gestão ambiental e logística.
Para fornecedores e prestadores de serviços, o empreendimento poderá abrir oportunidades em diferentes áreas:
- Construção e montagem de estruturas industriais.
- Fornecimento de máquinas e equipamentos.
- Manutenção mecânica, elétrica e industrial.
- Transporte de madeira, insumos e produtos.
- Serviços de engenharia e projetos.
- Automação e instrumentação.
- Segurança do trabalho e gestão ambiental.
- Serviços de apoio às operações.
Os números divulgados são projeções, não contratações realizadas ou vagas abertas. Também não existe, nas informações consultadas, uma distribuição confirmada dos postos de trabalho entre os municípios da região.
A efetiva geração de empregos dependerá do cronograma de implantação, da contratação de empresas fornecedoras e das necessidades operacionais da futura unidade. Fundação Estadual de Proteção Ambiental+1
Licenciamento ambiental: o que representa a autorização concedida à CMPC
A emissão da Licença Prévia é uma etapa relevante para o desenvolvimento do empreendimento, mas não significa que todas as questões ambientais estejam resolvidas.
No Brasil, o licenciamento ambiental de atividades potencialmente poluidoras envolve diferentes etapas de autorização. Cada uma possui uma finalidade específica.
Licença Prévia: avaliação da viabilidade ambiental
A Licença Prévia (LP) é concedida durante a fase de planejamento. Ela avalia a viabilidade ambiental do empreendimento e estabelece condições que deverão orientar as próximas etapas.
No caso do Projeto Natureza, a Fepam informou que a análise envolveu estudos ambientais, audiência pública e recebimento de manifestações da sociedade.
A audiência pública ocorreu em 29 de janeiro de 2026, em Barra do Ribeiro, com apresentação do Estudo de Impacto Ambiental e do Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima).
Segundo a Fepam, o encontro registrou 1.178 participantes presenciais e 1.376 visualizações durante a transmissão pelo YouTube. O período para recebimento de manifestações foi prorrogado até 13 de fevereiro.
Licença de Instalação: autorização necessária para construir
A próxima etapa será a solicitação da Licença de Instalação (LI).
Para isso, a empresa deverá apresentar os projetos e documentos técnicos exigidos pela Fepam, demonstrando como serão executadas as medidas de controle ambiental e as condições estabelecidas na Licença Prévia.
Entre os documentos mencionados pela reportagem do GZH estão o cronograma executivo das obras, o balanço hídrico, o gerenciamento dos resíduos da construção civil, os projetos de drenagem e o tratamento de efluentes industriais.
A concessão da LI permitirá iniciar as obras autorizadas, desde que sejam observadas as respectivas condicionantes.
Licença de Operação: etapa anterior ao funcionamento
Depois da construção e da verificação do atendimento às exigências aplicáveis, será necessária a Licença de Operação (LO).
É essa etapa que autoriza o funcionamento da atividade industrial, conforme as condições definidas pelo órgão ambiental.
A sequência demonstra por que a Licença Prévia não deve ser interpretada como autorização para iniciar imediatamente a construção ou produzir celulose.
Até o momento da publicação desta matéria, não há cronograma completo confirmado que permita estabelecer uma data definitiva para o início das obras ou para a entrada em operação da fábrica. Fundação Estadual de Proteção Ambiental+2
Questionamentos ambientais e participação das comunidades
Além da dimensão econômica, o Projeto Natureza envolve questões ambientais e sociais que precisam continuar sendo acompanhadas.
Empreendimentos de grande porte relacionados à indústria de celulose exigem avaliação de diferentes aspectos, incluindo consumo de água, tratamento de efluentes, gestão de resíduos, abastecimento de madeira, impactos sobre ecossistemas e possíveis efeitos sobre comunidades próximas.
No caso da CMPC, o processo de licenciamento também foi objeto de questionamentos do Ministério Público Federal (MPF).
Em maio de 2026, o MPF ajuizou uma ação civil pública para discutir o cumprimento do direito à consulta prévia, livre e informada de comunidades indígenas, quilombolas e pescadores artesanais potencialmente afetados pelo empreendimento.
O órgão também questionou a necessidade de estudos específicos sobre os possíveis impactos nessas populações e suas atividades tradicionais.
Posteriormente, em outubro, o GZH informou que a Funai havia concluído a consulta com representantes do povo Kaingang e que emitiria manifestação favorável ao projeto. A reportagem também registrou que as discussões judiciais sobre a participação de outras comunidades permaneciam em pauta.
É importante não confundir a continuidade do licenciamento administrativo com o encerramento das discussões judiciais.
A emissão da Licença Prévia não representa, por si só, uma declaração de inexistência de impactos ambientais ou sociais. Da mesma maneira, os questionamentos apresentados pelo MPF devem ser identificados como alegações e pedidos submetidos à apreciação judicial, não como irregularidades definitivamente reconhecidas.
O acompanhamento das condicionantes ambientais, das medidas de prevenção e compensação e dos procedimentos de participação social será importante durante as próximas etapas do empreendimento. Ministério Público Federal+2
Projeto Natureza da CMPC: próximos passos da expansão industrial
O avanço do licenciamento coloca o Projeto Natureza em uma nova etapa de preparação, mas ainda existem decisões importantes antes que a fábrica possa sair do planejamento e se transformar em uma operação produtiva.
Entre os principais pontos que merecem acompanhamento estão:
- Licença de Instalação: análise e aprovação dos projetos necessários para autorizar a construção.
- Capacidade produtiva: esclarecimento da diferença entre os números divulgados de 2,5 milhões e 3 milhões de toneladas anuais.
- Investimento: detalhamento da composição dos R$ 27 bilhões e da relação com o terminal portuário.
- Cronograma: divulgação das datas previstas para mobilização das obras e conclusão das instalações.
- Empregos: publicação de informações sobre contratações, qualificações e oportunidades regionais.
- Condicionantes ambientais: acompanhamento das medidas exigidas pela Fepam e das questões relacionadas às comunidades potencialmente afetadas.
- Licença de Operação: cumprimento dos requisitos necessários para iniciar a atividade industrial.
O Projeto Natureza representa um movimento de grande dimensão para a indústria de celulose brasileira. A estimativa de R$ 27 bilhões, a capacidade produtiva projetada e a infraestrutura logística prevista mostram a escala do planejamento da CMPC no Rio Grande do Sul.
Entretanto, o impacto econômico definitivo dependerá da execução do investimento, da conclusão das instalações e da capacidade de transformar o projeto em uma operação industrial efetiva.
A Licença Prévia representa um avanço no processo de implantação, mas a próxima autorização ambiental será determinante para que a construção possa começar.
Fontes e referências
1. Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam). Fepam entrega Licença Prévia para o Projeto Natureza, da CMPC, em Barra do Ribeiro. Publicado em 23/10/2026.
Consultar publicação oficial da Fepam
2. Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura do Rio Grande do Sul (Sema). Governo do Estado entrega Licença Prévia para o Projeto Natureza, da CMPC, em Barra do Ribeiro. Publicado em 23/10/2026.
Consultar publicação da Sema
3. GZH. Governo do Estado entrega Licença Prévia do Projeto Natureza da CMPC, de R$ 27 bilhões. Publicado em 23/10/2026.
Consultar reportagem do GZH
4. GZH. Com licença prévia emitida, o que falta para a CMPC começar as obras da fábrica no RS? Publicado em 22/10/2026.
Consultar reportagem sobre as próximas etapas
5. Ministério Público Federal (MPF). MPF ajuíza ação para que licenciamento ambiental de fábrica de celulose observe direitos de comunidades tradicionais. Publicado em 13/05/2026.
Consultar manifestação do MPF
6. GZH. Funai conclui consulta a indígenas e emitirá aprovação final para fábrica da CMPC em Barra do Ribeiro. Publicado em 20/10/2026.
Consultar reportagem sobre a consulta indígena
Observação editorial: as informações sobre capacidade produtiva foram confrontadas com as publicações disponíveis. A diferença entre 2,5 milhões e 3 milhões de toneladas anuais foi mantida explicitamente, sem apresentar os números como equivalentes ou definitivamente conciliados.
