O abastecimento de navios com etanol começou a ganhar escala comercial no Porto de Santos, com uma operação que prevê o fornecimento de até 10 milhões de litros do biocombustível até dezembro de 2026.O Porto de Santos iniciou uma nova etapa no mercado internacional de combustíveis marítimos, com o fornecimento regular de etanol brasileiro para embarcações da armadora francesa CMA CGM. A operação, iniciada em 19 de outubro de 2026, prevê a movimentação de aproximadamente 10 milhões de litros do biocombustível até dezembro, conectando a produção sucroenergética nacional à busca global por alternativas aos combustíveis fósseis utilizados no transporte marítimo.
O primeiro navio abastecido nessa nova fase foi o CMA CGM IRON, porta-contêineres com capacidade para 13 mil TEU, equipado com um motor desenvolvido para operar com três alternativas energéticas: combustível marítimo convencional, metanol e etanol. A iniciativa reúne Copersucar, CMA CGM, Bunker One, Evolua Etanol, AGEO Terminais, Santos Brasil e Autoridade Portuária de Santos (APS).
O acordo representa um avanço importante para a comercialização do etanol brasileiro, que passa a contar com uma nova aplicação no transporte internacional de cargas. Mais do que demonstrar a possibilidade técnica de utilizar o biocombustível em embarcações de grande porte, o projeto estabelece uma estrutura logística para transformar esse fornecimento em uma operação comercial recorrente.
Resumo da notícia: principais pontos de atenção
- Volume previsto: aproximadamente 10 milhões de litros de etanol até dezembro de 2026.
- Primeira operação da nova fase: realizada em 19 de outubro, com o navio CMA CGM IRON.
- Capacidade da embarcação: 13 mil TEU, equivalentes a 13 mil contêineres de 20 pés em capacidade nominal.
- Estrutura logística: participação da Copersucar, Evolua Etanol, AGEO Terminais, Bunker One e Santos Brasil.
- Expansão comercial: a Copersucar planeja alcançar 200 milhões de litros de fornecimento marítimo em 2027, segundo declaração publicada pela CNN Brasil.
- Mercado potencial: a substituição de 10% do consumo mundial de combustíveis marítimos poderia representar uma demanda adicional estimada em 50 bilhões de litros anuais de etanol, segundo as empresas.
Porto de Santos transforma teste de etanol em operação comercial
A utilização de etanol em navios não começou em outubro. Em julho de 2026, o Porto de Santos recebeu uma operação pioneira envolvendo o mesmo navio, o CMA CGM IRON. Na ocasião, foram avaliados os procedimentos de abastecimento e a utilização do combustível em uma embarcação de longo curso.
A operação de outubro representa uma mudança de escala comercial. Em vez de uma experiência isolada, os participantes passam a estruturar uma sequência de abastecimentos, com planejamento de fornecimento, transporte, armazenamento e transferência do combustível para as embarcações.
Segundo informações divulgadas pela Copersucar e reproduzidas pela imprensa, o acordo prevê pelo menos sete abastecimentos até o encerramento de 2026, com volume total estimado em aproximadamente 10 milhões de litros. A quantidade de operações poderá sofrer alterações conforme a disponibilidade dos navios e suas rotas.
O valor financeiro do contrato não foi divulgado.
Essa diferença entre uma operação-piloto e o fornecimento recorrente é importante para o setor industrial. Uma experiência inicial demonstra a viabilidade de determinado procedimento em condições específicas. A operação comercial, por sua vez, exige disponibilidade contínua de combustível, capacidade de armazenamento, planejamento portuário e integração entre diferentes empresas.
Para o setor sucroenergético, a iniciativa amplia as possibilidades de comercialização do etanol, aproximando produtores brasileiros de um mercado internacional que procura diversificar suas fontes de energia.
Motor tricombustível permite utilizar etanol na navegação internacional
Navio porta-contêineres reabastece com etanol no Brasil pela primeira vez – Notícias Agrícolas
A utilização do etanol no transporte marítimo depende de uma condição tecnológica fundamental: a embarcação precisa possuir um sistema de propulsão projetado e certificado para trabalhar com esse combustível.
O CMA CGM IRON está equipado com o motor Everllence-B&W G95ME-C10.5-LGIM, descrito pela empresa como o primeiro motor tricombustível do mundo certificado para operar com etanol.
Essa configuração permite trabalhar com três alternativas:
- Combustível marítimo convencional.
- Metanol.
- Etanol.
A flexibilidade energética permite que o armador considere diferentes alternativas de abastecimento, conforme a disponibilidade dos combustíveis, os custos operacionais e as condições de cada rota.
Entretanto, a existência de motores preparados para metanol não significa que qualquer embarcação possa utilizar etanol automaticamente. A compatibilidade depende das especificações do motor, dos sistemas de armazenamento e alimentação, das certificações e das autorizações aplicáveis.
Para fabricantes de motores, estaleiros, armadores e fornecedores de combustíveis, o desenvolvimento dessa tecnologia representa uma oportunidade de ampliar as alternativas de propulsão marítima.
Como funciona a cadeia logística do etanol no Porto de Santos
Um dos aspectos mais relevantes do projeto é a integração entre empresas que executam diferentes etapas do fornecimento.
O abastecimento de um navio exige que o combustível esteja disponível na quantidade necessária, com especificações adequadas e dentro da programação operacional da embarcação.
A estrutura divulgada pelas empresas funciona da seguinte maneira:
Cadeia de abastecimento do etanol marítimo
1. Produção e comercialização
Copersucar e usinas associadas
2. Transporte
Evolua Etanol
3. Armazenamento
AGEO Terminais
4. Organização do abastecimento
Bunker One
5. Transferência para o navio
Terminal da Santos Brasil — Tecon Santos
Estrutura operacional baseada nas informações divulgadas pela Copersucar.
A Copersucar fornece o etanol produzido pelas usinas associadas. A Evolua Etanol participa do fornecimento e transporte até o complexo portuário, enquanto a AGEO Terminais é responsável pelo armazenamento.
A Bunker One organiza a etapa de abastecimento, e a transferência para a embarcação ocorre no terminal da Santos Brasil.
Essa integração demonstra que a comercialização de um combustível alternativo depende de uma infraestrutura que vai muito além da produção industrial. Transporte, armazenagem, controle operacional e disponibilidade portuária precisam funcionar de maneira coordenada.
Segurança operacional exige procedimentos específicos
O etanol apresenta características físico-químicas que exigem atenção especial durante o armazenamento e o abastecimento.
Uma delas é o baixo ponto de fulgor, propriedade que indica a temperatura mínima na qual o líquido libera vapores capazes de formar uma mistura inflamável em determinadas condições.
Por esse motivo, a operação demanda procedimentos específicos para controlar riscos relacionados à transferência, ao armazenamento e às possíveis fontes de ignição.
Segundo a Copersucar, a Bunker One desenvolveu um protocolo específico após meses de estudos e treinamento das equipes, considerando as características do combustível.
A Organização Marítima Internacional (IMO) também possui diretrizes internacionais para embarcações que utilizam metanol e etanol como combustíveis. A circular MSC.1/Circ.1621 estabelece orientações relacionadas ao projeto, à instalação, ao controle e ao monitoramento dos sistemas envolvidos.
A segurança, portanto, precisa ser considerada em todas as etapas, desde a infraestrutura portuária até os equipamentos instalados a bordo.
Etanol marítimo pode abrir novo mercado para a indústria brasileira
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A expansão do uso de etanol na navegação internacional pode criar uma nova frente comercial para a indústria sucroenergética brasileira.
Atualmente, o biocombustível possui aplicações consolidadas no transporte rodoviário, na indústria e em diferentes segmentos energéticos. A utilização em navios amplia esse conjunto de possibilidades e aproxima a produção nacional de um mercado global de grande dimensão.
Segundo estimativas divulgadas pelas empresas, o consumo mundial de combustíveis marítimos supera 270 bilhões de litros por ano.
Considerando a equivalência energética entre os combustíveis, a substituição de 10% desse consumo poderia representar um mercado potencial de aproximadamente 50 bilhões de litros anuais de etanol.
Essa estimativa, entretanto, não representa uma demanda contratada. Trata-se de um cenário potencial, cuja concretização depende de fatores tecnológicos, econômicos, regulatórios e logísticos.
Entre os principais desafios estão:
- Ampliação da frota de navios compatíveis com etanol.
- Disponibilidade de infraestrutura de abastecimento em diferentes portos.
- Competitividade do preço do biocombustível.
- Segurança e certificação das operações.
- Capacidade de fornecimento em escala internacional.
- Comprovação dos benefícios ambientais ao longo da cadeia produtiva.
Copersucar planeja ampliar fornecimento para 200 milhões de litros em 2027
Um indicador adicional sobre a expectativa de expansão é a meta anunciada pela Copersucar para 2027.
Em entrevista publicada pela CNN Brasil em 23 de outubro de 2026, o presidente da companhia, Tomás Manzano, informou que a empresa trabalha com o objetivo de alcançar 200 milhões de litros de etanol destinados ao abastecimento marítimo em 2027.
O volume representaria uma ampliação expressiva em relação aos aproximadamente 10 milhões de litros previstos para os últimos meses de 2026.
É importante observar que essa quantidade constitui uma meta empresarial em planejamento, e não um volume já contratado ou comercializado.
Se concretizada, a expansão poderá estimular a organização de uma cadeia de fornecimento mais ampla, envolvendo produtores, distribuidores, operadores de terminais e empresas especializadas em combustíveis marítimos.
Frota de navios compatíveis pode acelerar a adoção do biocombustível
A evolução da tecnologia de propulsão é outro fator que pode favorecer o desenvolvimento desse mercado.
Segundo os dados da DNV citados no comunicado empresarial, 159 embarcações já operam com motores preparados para metanol que podem utilizar etanol, enquanto mais de 450 novos navios com essa tecnologia estão previstos para entrega até 2030.
Esses números indicam uma possível ampliação da base tecnológica necessária para a utilização de combustíveis à base de álcool.
Entretanto, é necessário distinguir capacidade técnica potencial de utilização comercial efetiva.
Uma embarcação equipada com motor compatível não está necessariamente abastecida com etanol, nem possui automaticamente todas as condições operacionais e comerciais para utilizar o combustível.
A decisão depende da certificação do sistema, das condições de segurança, da disponibilidade de abastecimento e da estratégia energética de cada armador.
Para a indústria naval, esse movimento pode estimular investimentos em motores, sistemas de armazenamento, equipamentos de transferência e soluções de abastecimento.
Para o setor sucroenergético, abre-se a possibilidade de atender uma nova categoria de consumidores internacionais.
Benefícios ambientais dependem da origem e da produção do etanol
A utilização de etanol em embarcações está relacionada aos esforços para reduzir a intensidade de carbono do transporte marítimo. Entretanto, o benefício ambiental não deve ser determinado exclusivamente pelo combustível utilizado durante a navegação.
A avaliação precisa considerar todo o ciclo de vida energético, desde a produção da matéria-prima até a utilização final no motor.
No caso do etanol brasileiro, alguns fatores importantes são:
- Origem da cana-de-açúcar.
- Práticas agrícolas e uso do solo.
- Consumo de energia durante a produção industrial.
- Transporte entre as unidades produtoras e os terminais.
- Armazenamento e distribuição.
- Eficiência do sistema de propulsão.
- Emissões associadas à utilização do combustível.
Essa análise é conhecida como avaliação do ciclo de vida e permite comparar diferentes alternativas energéticas de maneira mais completa.
O programa brasileiro RenovaBio também integra esse contexto, estabelecendo mecanismos de incentivo à eficiência energética e à redução da intensidade de carbono na produção de biocombustíveis.
Apesar das possibilidades ambientais, as informações divulgadas sobre o contrato de Santos não apresentam um percentual específico de redução de emissões para os abastecimentos previstos.
Portanto, ainda não é possível atribuir ao projeto um resultado climático quantitativo sem uma avaliação comparativa devidamente fundamentada.
Perguntas frequentes sobre o etanol como combustível marítimo
Quanto etanol será fornecido aos navios no Porto de Santos?
A previsão anunciada é de aproximadamente 10 milhões de litros até dezembro de 2026, distribuídos em pelo menos sete abastecimentos, sujeitos a alterações conforme a disponibilidade das embarcações e suas rotas.
Qual navio recebeu o etanol?
O CMA CGM IRON foi o primeiro navio abastecido na nova fase comercial, em 19 de outubro de 2026. A embarcação possui capacidade para 13 mil TEU e utiliza motor tricombustível certificado para operar com etanol.
Todos os navios podem utilizar etanol como combustível?
Não. A utilização depende da compatibilidade do motor, dos sistemas de armazenamento e alimentação, das certificações e das exigências de segurança aplicáveis a cada embarcação.
O etanol já representa uma alternativa ambientalmente comprovada para todos os navios?
O etanol pode contribuir para reduzir a intensidade de carbono da navegação, mas os resultados dependem de sua origem, produção, transporte e utilização. Cada operação precisa ser avaliada considerando o ciclo de vida do combustível.
Etanol marítimo coloca a indústria brasileira diante de uma nova oportunidade
O início do fornecimento regular de etanol no Porto de Santos representa um avanço comercial para a indústria sucroenergética e para a cadeia brasileira de combustíveis renováveis.
A iniciativa demonstra que a produção nacional pode atender a uma nova aplicação energética no transporte marítimo internacional, utilizando uma estrutura que integra produção, transporte, armazenamento e abastecimento portuário.
O próximo passo será transformar a experiência comercial inicial em uma operação economicamente sustentável e capaz de atender um número maior de embarcações.
A execução dos abastecimentos previstos, a evolução da frota compatível, a competitividade do combustível e a comprovação dos resultados ambientais serão indicadores importantes para acompanhar o desenvolvimento desse mercado.
Para o Brasil, a oportunidade está em ampliar o valor econômico de sua produção de etanol e fortalecer a participação da indústria nacional em uma cadeia internacional de energia e logística que passa por mudanças tecnológicas.
Fontes e referências
1. Fonte empresarial primária
Copersucar — Etanol passa a abastecer navios regularmente no Porto de Santos. Publicado em 23 de outubro de 2026.
Consultar comunicado oficial da Copersucar. copersucar.com.br
2. Autoridade portuária
Autoridade Portuária de Santos — Etanol passa a abastecer navios regularmente no Porto de Santos. Publicado em 23 de outubro de 2026.
Consultar publicação oficial da APS. Porto de Santos
3. Operação pioneira
CMA CGM / Copersucar — CMA CGM, Copersucar and Bunker One Complete First Bioethanol Bunkering of a Deep-Sea Containership in Brazil, at the Port of Santos. Publicado em 13 de julho de 2026.
Consultar comunicado sobre a operação pioneira. copersucar.com.br
4. Mercado e projeções empresariais
CNN Brasil — Copersucar fecha primeiro contrato mundial para abastecer navios com etanol. Publicado em 23 de outubro de 2026.
Consultar reportagem da CNN Brasil. CNN Brasil
5. Normas internacionais de segurança
Organização Marítima Internacional — MSC.1/Circ.1621 — Interim Guidelines for the Safety of Ships Using Methyl/Ethyl Alcohol as Fuel.
Consultar diretrizes internacionais da IMO. Future Fuels and Technology+1
Nota editorial: as estimativas de mercado e metas de expansão foram atribuídas às empresas ou às reportagens correspondentes. Não foram identificados valores financeiros do contrato nem percentuais comprovados de redução de emissões para esta operação.
